Carta para os pontos finais





Eu ainda não sei escrever cartas de despedidas. Tenho me esforçado para aprender pois de tempos em tempos isso se repete, doses incontroláveis de adeus acontecem. Mas eu não sei ficar em paz ao te ver fechar a porta.

A nossa rotina foi interrompida no estalar dos teus lábios ao dizer que me amava, mas que precisava ir. Vejo esse filme passar na mesma proporção e intensidade por vidas alheias, o mesmo roteiro, penso até que está programado que isso aconteça. Em meus devaneios imagino que em algum lugar do mundo está escrito que pessoas que amam demais encontram pessoas que não amam na mesma proporção, mas isso acontece para que algum lado aprenda algo e nem sempre é o lado que ama menos que aprende. Esse é só um exemplo superficial dos devaneios que me ocorrem, das fugas em que tenho tentando justificar que o amor existe, mas a desistência é mais forte.


Nós costumávamos falar sobre isso, lembro de concordarmos que nada tinha fim e você dizer que as coisas só mudavam a nomenclatura, mas que o sentimento continuava se manifestando nos mesmos batimentos cardíacos, no mesmo pulsar da íris de forma mais lenta até se transformar em lembrança. Pra você nada tinha fim, mas em sua primeira oportunidade, nós tivemos um.

Em nossas conversas eu citava a falta que eu sentiria caso não nos víssemos mais, e você insistia em dizer que era só uma quebra de convivência que facilmente se transformaria em lembrança.

Você era prática e objetiva e eu admirava muito essas características suas, menos quando se tratava da possibilidade de eu não acordar antes de você pra te ver dormir, ou da possibilidade de não gargalhar ao te ver gritar com excitação algo aleatório no meio da sala, da rua, da balada.


O meu drama era constante.

E se não nos víssemos mais?!

Você insistia: “Deixar de se ver não quer dizer que seja o fim”.

Eu admiro muito a tua determinação em tudo! Admiro ainda mais a sua capacidade de argumentar com embasamentos que mesmo que sejam apenas seus, me fazem repensar uma vida toda e sobretudo antes de te responder.

“Pensa em alguém que morreu ou em alguém que amou secretamente outro alguém a vida inteira! Essa pessoa viver outro amor, não quer dizer que ela deixou de amar ou não quer dizer que a lembrança é lembrança de um final ou de algo que já foi. Lembrança é a mais linda prova de que algo é presente. Entendeu?”.

Sim, hoje eu entendo. Você é lembrança presente.


Você dizia também que eu como escritora - mesmo sem eu me considerar uma - se eu fosse escrever sobre isso, eu pensaria e não falaria necessariamente da gente, mas sim de relacionamentos...

Eu nunca saberei se essas linhas chegaram até você e foram lidas, mas agora eu escrevo sobre isso de uma maneira perdida e falha. Eu digo que o amor não termina, mas eu sei que o momento de adeus é mais presente do que a lembrança. Escrevo que ele é a porta principal que se abre para a lembrança entrar vestida de gala e fazer a sua dança.

Percebo e relato que há um momento em que as ligações acabam, a preocupação descansa e os olhares esquecem de se querer. Você não me procura mais e eu receio que ao te procurar ocorra a rejeição. Provo disso na pele e na escrita, a rejeição existe.

Mas o que são essas poucas atitudes, além do amor de alguém que ainda tenta, sobre quem já esqueceu até de lembrar? Ou de quem tocou a música, esperou a lembrança dançar e fechou as portas?


Existia dentro de mim um adeus consciente do fim, nós inclusive falamos sobre ele. Eu diria “ok, seja feliz!”, você diria o mesmo e o nosso amor se transformaria, mas você deixou tão claro para eu não te esperar que eu atropelei meio mundo dentro de mim.

E acabou e você nunca mais voltou.


Se eu fosse escrever sobre o amor e sobre duas pessoas eu escreveria isso: inicio, meio e fim. O quando não sabemos.


Com gratidão,

Kau Bonnett.


"Vá fundo dentro de si mesmo, pois há uma fonte de benevolência preparada para fluir se você continuar."

- Marco Aurélio