• Kau Bonnett

Você foi a intensidade mais bonita



É um tempo cibernético demais para sentir o amor. Um tempo onde os likes são ou não a junção de dois seres, mas não era esse tempo louco quando eu a conheci. Impossível esquecer aquela interminável troca de olhares que durou uns três minutos. Contei três e esqueci o resto, o tempo fez questão de voar e a conexão foi ficando cada vez mais intensa. Eu sabia que o tempo não iria esperar e nem me perdoar, então eu precisava guardar algumas coisas dela. Comecei a minha coleção de saudades, cedo.


         Ela tinha um jeito dela, mas ela também tinha um jeito dela comigo e era um jeito bobo de ser. Às sete da manhã ela era a pessoa mais atrapalhada do mundo para se vestir, isso quando não desligava o despertador para dormir mais um pouco. Nos dias de semana ela usava uma camisa social que a deixava ainda mais linda! 

Ela tinha uma mania linda de percorrer o meu rosto com beijos. Quando chegava dez da noite, ela fazia um barulho estranho com a boca (um barulho de preguiça) e se aconchegava nos meus braços. Os olhos dela, eles contavam tantas histórias! Eles fitavam os meus por longos minutos, e a única coisa que quebrava aquela hipnose era a boca dela puxando de canto e eu sorrindo em resposta.


Não existia distância entre nós, cada vez que nos víamos parecia que nem tínhamos ficado longe um mês. Ela não se importava nenhum pouco de pegar o carro e ir até mim, não importava o lugar que eu estivesse, e eu amava muito isso. Todos os dias, durante uma semana, eu tive as mãos dela na minha cintura enquanto eu preparava o café. Ela me conhecia tanto que quando eu tremia o lábio inferior, ela já me abraçava ou me fazia rir, pois sabia que eu queria chorar. Era dona de uma marra só dela e de uma “mala” para dirigir também, e eu adorava quando ela passava a viagem toda com a mão na minha. Ela tinha um coração bobo demais para o amor e grande demais para lidar com o mesmo, mas era também dona de uma racionalidade sinistra. 

Ela era inteiramente família e isso me aproximou ainda mais. Nós assistíamos filmes, mas nunca chegávamos no final. Teve um dia que a gente saiu para correr e ela torceu o pé - foi muito tenso para mim - eu quis carrega-la no colo, eu quis voltar o momento e impedir aquilo, eu só queria que ela não sentisse dor. 

Nós cozinhávamos juntas, pouco, mas cozinhávamos, ela que me ensinou fazer crepioca e eu repito isso praticamente todos os dias, até hoje, e ainda passei a receita para a minha família inteira.


         Eu guardei cada detalhe dela em mim, cada beijo que dei na mão dela e por sinal, eu amo a mão daquela mulher! Eu guardei tudo para terminar dizendo que não ficamos juntas e muito menos separadas. Acho que grandes histórias têm que ser assim mesmo, complicadas de explicar.

Todas as vezes que ela me dava as costas, me vazia acreditar que o amor era apenas um vazio. Nas vezes que ela voltava, fazia-me querer lembrar as mais belas palavras para contempla-la. Ela tinha o dom de me virar do avesso.

         Ouvi dizer que o amor acontece nos sinais, nos menores sinais. Então esse texto é um sinal, um sinal meu de que eu não quero mais ninguém. O espaço dela vai ficar aqui até ela voltar, olhar nos meus olhos e dizer: Adeus. Mas se esse adeus não acontecer e se esse último sinal ela ver, deixa-me tentar mais uma vez... 

- Você aceita crescer comigo?



Com gratidão,

Kau Bonnett. 

"Vá fundo dentro de si mesmo, pois há uma fonte de benevolência preparada para fluir se você continuar."

- Marco Aurélio