• Kau Bonnett

Sem título

Atualizado: Jan 12



      É madrugada e eu estou debaixo do chuveiro tentando parar as minhas lágrimas. Deixo a água penetrar em meu peito para ver se me acalma, mas não há calma aqui. Decido deixar o devaneio me levar para longe e começo a pensar em como somos sozinhos. 

Jung tinha razão quando disse que: “A solidão não nasce de não termos ninguém próximo, mas de sermos incapazes de comunicar as coisas que nos parecem importantes ou de sustentar certas opiniões que outros acham inadmissíveis”. Isso nos enfraquece até chegarmos ao ponto de nos calarmos, até chegar ao ponto de só conseguirmos responder o óbvio, sem jeito algum e com agressividade, até chegarmos ao isolamento. 


Penso - ainda deixando a água cair sobre o meu peito - que isso é algo eterno, pois, Jung aos seus 79 anos, ainda sofria com as seguidas crises de depressão e dúvidas sobre si mesmo. Não que eu queira falar apenas desse incrível ser humano que deve ter sido Jung, muitas pessoas inclusive nem tem conhecimento dele, mas é que hoje, lendo os seus ensinamentos, percebo que isso sempre existiu, em todas as épocas e talvez desde sempre.

Desligo o chuveiro, o choro acabou por agora e por hora vem me a vontade de fugir de onde estou. Buscar algo em outra cidade, começar uma nova vida, ser um alguém diferente, simples e comum, alguém anônimo. Mas o que eu queria mesmo era deixar os meus pensamentos aqui no banho, para então pegar as malas e partir, pois eu sei que, não importa o quanto eu fuja o sofrimento sempre irá me alcançar. Jung dizia que: “Devemos suportar o nosso sofrimento, pois, o homem que nunca atravessou o inferno de suas paixões, nunca conseguirá supera-las”. 

Visto-me, fecho a porta do banheiro e deito novamente em minha cama fria e vazia de tudo. Não há lembranças recentes que eu queira reviver, pois elas doem. Não quero da minha infância recordar, pois as memórias me fazem querer voltar no tempo. Não tenho futuro para projetar, pois não desejo que a ansiedade impeça o sono de chegar. Não há nada, simplesmente nada a se fazer, e é assim que a dor aparece. Suporto o sofrimento para então supera-lo.

“Decidir morrer para fora e viver para dentro”, é o mais alto preço da humanidade, quem estiver disposto a pagar, corre o risco de enlouquecer. 

Com gratidão,

Kau Bonnett.

"Vá fundo dentro de si mesmo, pois há uma fonte de benevolência preparada para fluir se você continuar."

- Marco Aurélio