Relógios de parede deixarão de existir


Senti o chão tremer ao mencionar o próximo movimento, estava almoçando sem saber que horas eram. Sabia apenas do tempo lá fora, seco, com um sol extremamente forte acompanhado das nuvens brancas com curvas imperfeitas. Ainda era dia.

Tento escrever agora sobre o passado. Não quero dessa vez usar palavras repetidas, mas é óbvio que não será possível este feito.

Sei que vai parecer ter sido fácil posicionar estas linhas e mencionar sobre a força da incerteza que me invade, mas não foi. Na verdade nunca é fácil falar e muito menos escrever sobre os meus sentimentos, aliás, deveria dizer que são meus? Não é suficiente a culpa do egoísmo?

Senti o chão tremer ao perceber que as horas não contavam mais nada e que meu dever era apenas tonar os movimentos mais lentos, observar a brisa que me tocava e as oportunidades que iam e voltavam, como ondas de uma praia calma. Senti ao deitar-me sobre o macio do algodão, que poderia curvar o meu corpo para direita ou esquerda, não fazia diferença alguma. Por longos instantes projetei o meu pensamento para o futuro e proferi mentalmente palavras de pura insegurança, voltei imediatamente ao presente, desconsiderando o ocorrido e agradecendo pelas sinceras gargalhadas. Pausa.

Essa deve ser a décima viagem que faço e sempre há nuvens no caminho, com exceção do agora. Pela primeira vez, trata-se de um espaço vazio e sobre tudo o que ele ensina. Sobre a leveza nos momentos de conforto e sobre a confusão e tristeza nos momentos de mudança. Parece que nada do que eu digo é absorvido neste espaço, mas com cinquenta passos para trás, observando de longe, este vazio se faz sim ciente de si. Aprendendo sobre o peso das citações internas e quanta falta fazem, eu abstraio a linguagem dos atos, cinquenta passos é longe o bastante para sentir frio. E eu sinto.

Quantas roupas cabem no seu armário? Seus livros se misturam com elas? Ou melhor, quanto vale a sua beleza externa quando comparada ao que você aprendeu sobre si e sobre o todo?

Sempre pareceu-me mais fácil olhar direto para um ponto e seguir. Sem questionar mais nada, fluir na onda que levanta e terminar a mesma em pé, na prancha. A facilidade de olhar apenas para os próprios pés realmente atrai.

Mas é a dificuldade em dizer o que dói, no momento em que dói. De aceitar o que te destrói enquanto a insegurança grita. O duro momento em que se é necessário olhar para o todo que te cerca, para só então tomar uma decisão que te arrebenta, mas que pode organizar o caos futuramente. A dificuldade de estar no agora, tendo que lidar com a velocidade em que o sangue pulsa e a insanidade atormenta. Isto é o real.

Tirei o relógio da parede. Apenas os momentos ditarão a hora que estou vivendo, o momento de retroceder, de avançar, de aprender, de olhar para mim e escolher o próximo momento. O chão irá tremer e tremer, quantas vezes for necessário, mas as coisas irão se ajeitar a ele novamente e o que não conseguir, será deixado na parede, no lugar do relógio, deixando assim de existir em minha vida.


Eu tenho tempo, tenho todo o tempo do mundo. E eu sei o que eu quero. Se for sempre necessário olhar para o todo e sentir tremer tudo, assim o farei.


Com gratidão,

Kauany Bonnett.


"Vá fundo dentro de si mesmo, pois há uma fonte de benevolência preparada para fluir se você continuar."

- Marco Aurélio

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