O caminho de casa


Vejo o mar daqui de cima, meia volta e quase beijamos o mesmo, ainda não entendi o que estou fazendo aqui.

A caminho de casa vejo o céu se despedir com nuvens cinzas. Chegando, solto a mala no tapete a minha esquerda, amanhã eu organizo a mesma. Piso descalço no chão de madeira, está tudo empoeirado e só alguns cômodos estão limpos. A última vez que estive aqui foi há um ano, como pode esses cômodos específicos estarem tão intactos? Mais uma vez aqui, mas dessa vez, no agora.

A sala e a cozinha são uma coisa só, amplas, mas uma coisa só. Estou sem fome, então, bebo água e os meus olhos se fixam no chão. Além da sujeira, tem algumas rachaduras, penso que talvez fosse uma boa ideia trocar o mesmo por um piso de concreto, cimento queimado quem sabe. Decido que sim e no dia seguinte começo.

Na primeira tábua que arranco, ela vem firme em direção ao meu peito. Essa doeu. Continuo uma por uma e quando termino já está noite. Olho para aquele espaço que antes estava oco e questiono como aquilo nunca havia me incomodado.

Não sei que material eu aplico agora, ainda não sei em detalhes os próximos passos, mas eu encaro firme o chão e muitas questões assombram a minha casa. Isso sempre esteve aqui? Debaixo dos meus próprios pés e eu não vi?

Vou começar pela parte dos fundos, na cozinha, me parece fazer mais sentido começar onde eu passo a maior parte dos meus dias, onde tudo nasce, onde um ingrediente se junta ao outro e forma a consciência de algo, a quebra de um padrão ou até mesmo os sentimentos.

Quero conseguir dedicar o melhor à minha casa e sinto que esse é o momento.

Se casa não é algo externo, é no meu interno que eu estarei nos próximos dias, ou melhor, no meu lar.



Com amor,

Kauany Bonnett.