Eu sinto muito, ainda sinto

Atualizado: Jun 16



Eu deitava em seu colo e me sentia em casa, ao te contar sobre a minha infância você ouvia atentamente e guardava com carinho cada detalhe. Eu ia pra casa, passava um tempo comigo e te deixava ser sua própria companhia, nos sentíamos bem e leve por isso.

Você acordava antes de mim, tomava um banho enquanto eu continuava dormindo. Com a toalha enrolada no corpo ia direto pra cozinha passar café enquanto eu enrolava para acordar, nunca fui de me enrolar muito, mas você me deixava tão confortável que o meu desejo era permanecer ali. Tiveram dias em que você saiu mais cedo da cama para cumprir com os seus deveres e nesses dias eu não consegui ficar em paz. A gente sabe de cada detalhe que passou.


Hoje eu carrego no peito todas as lembranças boas sem precisar recorrer às mídias do celular, lembro de você instantaneamente ao fechar os meus olhos. Lembro do primeiro dia na sua casa, tocava “If Ain’t got you” enquanto os nossos movimentos seguiam no manual, nos devorávamos. Segue na minha presente lembrança a nossa primeira troca de olhares, a forma como sutilmente nos aproximamos e o nosso primeiro beijo. Nosso réveillon feliz, com medo ao passar pelas ruas escuras, mas sobretudo com os dedos entrelaçados e confiantes de nós.

Eu amava a alegria que você trazia para os meus dias e o seu jeito de se preocupar comigo em detalhes. O quanto me fazia presente mesmo na saudade.


Fico escrevendo e externando tudo o que vivemos como se eu ainda pudesse sentir a noite chegar para você se encaixar em mim. Como se eu finalmente tivesse encontrado o meu lugar e eu gostava de também parecer teu lar, que fosse apenas e durante a noite toda, mas eu gostava. Havia vida lá fora e a gente acordava, tomava um banho pra viver, era um privilégio poder.

Eu te perseguia pela casa, lembra? Te enroscava em mim e te sentia me fazer gargalhar.

Lembro-me de uma tumultuada semana que tive e que você, mesmo passando por coisas difíceis, enviou-me um girassol com um bilhete que me curou de todo o peso que eu vinha sentindo. No dia seguinte eu quis me matricular em aula de cerâmica, pra fazer um prato com uma pintura de girassol para você.

Eu fiz uma viagem que havia planejado pra gente, você não conseguiu me acompanhar por conta do seu trabalho e foi até cômico o quanto eu conversei sozinha enquanto contemplava as nuvens que me acompanhavam na estrada, elas simbolizaram você e eu te fiz estar ali, mesmo sem estar.

Não está escrito o quanto eu gostava do teu jeito de conversar sem proferir uma palavra, através de gestos e olhares ainda te sinto presente, mas se diz algo, me ganha ainda mais. Eu sentia sempre, uma construção de nós.



Custei pra fechar os olhos ontem, tive que novamente pedir ajuda aos remédios. Hoje o sol não apareceu e muito menos as borboletas. Aquele bom dia que eu tanto amava receber, não veio.

O dia continua nublado e eu continuo te vendo em tudo o que faço. Procurei muitos, mas muitos textos para te enviar e arrancar um sorriso aí do outro lado da tela, mas infelizmente as incertezas venceram. Decidi escrever pra tentar externar o quando eu sinto, mas agora eu não sei se as palavras funcionam, agora as palavras parecem não querer a minha amizade. E eu enrolo, falando do céu, de borboletas, de bons dias, só quero dizer que você faz falta. Uma ou duas palavras suas, dizendo que pensou em mim, enviando uma foto nossa no meio do dia, uma música qualquer só pra nos lembrar... eu sinto muita falta.

Por isso, este longo texto é apenas um lembrete de que eu estou com mais saudade ainda.


Acordei com o estômago doendo e completamente sem rumo, sem fome. É muito doido sentir tudo isso.

As suas últimas frases e seus motivos não param de vir à minha frente. Você que sempre reclamou por eu pensar por você, agora pensou por nós e eu tento aceitar. Você dizia sobre parecer que nunca é suficiente, mas não prestou atenção no que eu dizia o tempo todo, todos os dias.

Parei agora pra almoçar, mas não consigo engolir nem uma maçã e você sabe o quanto eu gosto de maçã. As palavras começaram invadir a minha mente e pensei que fosse válido compartilhar com você, afinal, é por você, mas eu não posso mais destinar diretamente o que eu sinto, preciso respeitar a sua decisão de seguir só.


Por fim me resta agradecer, como sempre, como em todos os adeus que se somam em minha vida...

Obrigada por aceitar compartilhar a sua vida comigo, obrigada por me dar suporte e me lembrar da pessoa incrível que eu sou. Obrigada por ter caminhado comigo.

Eu prometi que cresceríamos juntas até onde nos coubesse e houvesse amor, talvez eu tenha esquecido de acrescentar o tempo.

Segundo suas próprias palavras, a desistência é mais fácil, mas segundo as minhas: eu ainda não acredito que você vá desistir sem nem tentar, logo na primeira conversa real que tivemos. Eu acredito que ainda há amor.


Com gratidão,

Kau Bonnett.











"Vá fundo dentro de si mesmo, pois há uma fonte de benevolência preparada para fluir se você continuar."

- Marco Aurélio