• Kau Bonnett

Escritos

 

Os meus dias começavam a ficar apertados. Acordava e em um piscar de olhos o pôr do sol tomava a sacada do meu apartamento. Eram dias difíceis. Nove. Pensei nove vezes, só naquele dia, em desistir de tudo, da vida. Parei por dois minutos o que estava fazendo e não me reconhecia no espelho. Algumas coisas estavam mudando e eu estava vendo aquilo acontecer sem interromper. Relia alguns textos antigos para não esquecer a essência, não sentia mais aquilo. 

Como pode o tempo nos tomar o amor? Não digo o tempo em dias, mas a falta de tempo dos dias. Não digo o amor em um todo, mas o amor por nós mesmos.

   Sem questionar mais, algo tinha que mudar... E mudou. 

Parei de criar outros motivos para viver, comecei viver. Pensar na morte me da vida. Se essa é a única certeza, quero assistir um desfile de escola de samba, da arquibancada. Quero pular de paraquedas, quero rir por um minuto sem parar. Se a certeza é o final, é a escuridão, é fechar os olhos e deixar o corpo por aqui, eu quero tatuar o pescoço e ter tanquinho. As pequenas e grandes loucuras, as poucas ou as mais absurdas, eu farei. 

    Deixei o sol nascer e se despedir em minha sacada. Agora não fecho as cortinas para fugir da noite que chegará, agora abro e agradeço. Agora sorrio bem mais que antes, e o tempo todo.


Depois de sentir a direção, de ler o final, a gente aprende a escrever o livro de outra maneira. Com cuidado e intensidade. Com o coração. 



Com Gratidão,

Kau Bonnett. 

"Vá fundo dentro de si mesmo, pois há uma fonte de benevolência preparada para fluir se você continuar."

- Marco Aurélio