Capítulo 1

Atualizado: Mar 8


Desperto cedo, olhando para a janela percebo que será mais um domingo de céu azul, pássaros cantam sem parar e o ar é fresco, a sensação é de estar extremamente vivo. Alguns passos até a cozinha. Uma xícara, um coador pequeno, um pouco de café e refeição para um. Preparo tudo com a delicadeza e consciência de possuir apenas duas xícaras e quatro pratos. Prefiro colecionar lembranças do que louças que jamais vou usar, isso não é comigo, cuido das que tenho e tenho o suficiente.

Um café quente e os mesmos ovos mexidos que aprendi aos meus 23 anos, satisfeito saio da mesa, deixo a louça suja na pia e caminho com a minha xícara até a calçada.

Essa manhã entregaram jornal, aliás, todos os domingos entregam e eu fico impressionado com a disposição dos entregadores, nunca soube se é amor pelo que fazem ou necessidade de colocar o pão na mesa.

Volto até a varanda, sento em minha velha cadeira de balanço e fecho os olhos por alguns segundos, sinto a calmaria ao respirar a brisa do tempo, parece até que uma mão repousa em meu peito. São sete horas da manhã, o sol já está beijando as árvores e não há o menor sinal de vida na rua, este é o meu momento favorito. Começo folhear o jornal, nada de novo nessa cidade pequena, tem matéria sobre os pequenos acidentes, sobre política, ofertas do capitalismo, palavras cruzadas, mas quase no final do mesmo, me deparo com algo que nunca vi por aqui antes - pelo menos não na minha assinatura de vinte anos de jornal. Parei os olhos no título e estagnei: “O sol também chora”. E na sequência a primeira frase: “Nós, quando realmente nos permitirmos ser quem somos, tão intensos, tão profundos e tão nós, conheceremos valores que jamais nos ensinaram antes. Conheceremos na pele os sentimentos mais humanos que existem”.


Me pareceu um texto sobre o amor, me atentei às linhas e o escolhi como primeira leitura.

Primeira página de letras miúdas concluída, paro a narrativa e percebo-me com os olhos embaçados. Tenho certeza de que não estou assim por conta do que acabei de ler, mas sim, porque me encontrei em meu primeiro amor. Encontrei-me quando jovem, confuso e falho, com as pernas longas, cambaleando como um adolescente esquisito que ainda nem sabia o que queria ser, mas já sabia a quem amar.


Toca o telefone, interrompo o balanço da cadeira e deixo o jornal sobre a mesa. É um longo caminho até o incômodo barulho, meus passos são lentos e os móveis são minhas muletas. Atendo quase que no último soar, do outro lado uma voz feminina e grave anuncia que os meus exames estão prontos e que a minha consulta foi agendada para a semana seguinte. Com a voz falha agradeço.

Tiro o telefone do gancho, essa era a única ligação que eu esperava, além de prezar pelo silêncio, há um escrito me esperando na varanda.

Linhas finais do que eu não queria que acabasse, tiro o lenço do bolso e limpo o que resta de lágrimas. Fecho o jornal em quatro voltas e o coloco dessa vez em minha cadeira. Pego minha xícara, e com apoio me direciono até o jardim. As palavras ainda borbulham em minha mente como um caldeirão cheio e quente. Os sentimentos que durante muito tempo evitei, agora são os responsáveis pelas arritmias cardíacas. Não há flor que me distraia e muito menos grama alta que me tire a paz, prevejo que o dia hoje será longo, um longo domingo de solitude.


Com amor,

Kauany Bonnett.