Algodões sem sabor

Atualizado: Fev 27

Não haviam opções, obrigatoriamente eu quebrei o costume de sempre escolher a janela e acomodei-me em meu assento no corredor. De canto vi uma senhora fechar a persiana, senti o receio dela em voar pela primeira vez. Do outro lado alguém provavelmente com sono ou com alguma razão pra não querer ver a vida lá fora, também fecha. Hoje eu não serei plateia na dança das nuvens.


Fecho os meus olhos e descanso. Viagem de avião sem ter onde encostar a cabeça, é difícil pra dormir.

Chego no meu destino, mais algumas horas de estrada. Agora em terra firme, olhando para o alto presencio as nuvens, o céu daqui parece ser mais azul e só de olhar pra frente já consigo ver as formas. São nuvens brancas e cinza-clara, com desenhos abstratos, chamadas de cumulus.


Embarco no ônibus, no primeiro banco da pra ver a estrada e consequentemente elas. Respiro fundo, mas tão fundo que sinto a paz me abraçar. Invade-me um amontoado de pensamentos e entre eles está você dizendo que ama as nuvens, me fazendo - sem ter noção de fazer - perceber a paz que é olhar para cima e respirar o mesmo ar que elas. Faz-me lembrar o quanto de vida eu já senti observando-as seguirem seus cursos. Faz-me sentir o conforto de um dia estar carregada como elas e no outro dia limpa, apenas respirando o céu.


Eu te assisti se despedir como as nuvens de verão que se vão com o vento, mudando rapidamente de formato e de tempo. Mas algo dentro de mim ainda te espera voltar como as nuvens de inverno, aquelas que vem e que ficam. Não se preocupe com o frio, eu serei o teu sol.



Com gratidão,

Kau Bonnett.


"Vá fundo dentro de si mesmo, pois há uma fonte de benevolência preparada para fluir se você continuar."

- Marco Aurélio