Kau Bonnett,

Com Gratidão

e com a alma.

SEM TÍTULO

  • maio 24, 2019
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      É madrugada e eu estou debaixo do chuveiro tentando parar as minhas lágrimas. Deixo a água penetrar em meu peito para ver se me acalma, mas não há calma aqui. Decido deixar o devaneio me levar para longe e começo a pensar em como somos sozinhos. 
Jung tinha razão quando disse que: “A solidão não nasce de não termos ninguém próximo, mas de sermos incapazes de comunicar as coisas que nos parecem importantes ou de sustentar certas opiniões que outros acham inadmissíveis”. Isso nos enfraquece até chegarmos ao ponto de nos calarmos, até chegar ao ponto de só conseguirmos responder o óbvio, sem jeito algum e com agressividade, até chegarmos ao isolamento. 
Penso - ainda deixando a água cair sobre o meu peito - que isso é algo eterno, pois, Jung aos seus 79 anos, ainda sofria com as seguidas crises de depressão e dúvidas sobre si mesmo. Não que eu queira falar apenas desse incrível ser humano que deve ter sido Jung, muitas pessoas inclusive nem tem conhecimento dele, mas é que hoje, lendo os seus ensinamentos, percebo que isso sempre existiu, em todas as épocas e talvez desde sempre. 

Desligo o chuveiro, o choro acabou por agora e por hora vem me a vontade de fugir de onde estou. Buscar algo em outra cidade, começar uma nova vida, ser um alguém diferente, simples e comum, alguém anônimo. Mas o que eu queria mesmo era deixar os meus pensamentos aqui no banho, para então pegar as malas e partir, pois eu sei que, não importa o quanto eu fuja o sofrimento sempre irá me alcançar. Jung dizia que: “Devemos suportar o nosso sofrimento, pois, o homem que nunca atravessou o inferno de suas paixões, nunca conseguirá supera-las”. 

Visto-me, fecho a porta do banheiro e deito novamente em minha cama fria e vazia de tudo. Não há lembranças recentes que eu queira reviver, pois elas doem. Não quero da minha infância recordar, pois as memórias me fazem querer voltar no tempo. Não tenho futuro para projetar, pois não desejo que a ansiedade impeça o sono de chegar. Não há nada, simplesmente nada a se fazer, e é assim que a dor aparece. Suporto o sofrimento para então supera-lo.


“Decidir morrer para fora e viver para dentro”, é o mais alto preço da humanidade, quem estiver disposto a pagar, corre o risco de enlouquecer. 



Com gratidão,
Kau Bonnett.





Photo by Jp Valery on Unsplash

Kauany Bonnett (1996). Nasceu em Santa Catarina e atualmente reside em São Paulo. Começou escrever com 14 anos de idade. É aficionada pelo comportamento humano e pelos ensinamentos da vida. Por isso, transforma os momentos vividos em palavras.

3 comentários:

  1. A respiração desregulada é a angústia trazendo em sua forma mais clara a desordem interna sentida, da dor se sente dor, se resume dor, se cansa em dor, da dor se faz vazio e aos poucos o ressignificar se mostra fazendo morada de dentro pra fora. Desejo luz e discernimento, às vezes encontramos abrigo no retirar-se ✨

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  2. Kau, não sei exatamente o que você está fazendo para se ajudar, mas não tenha vergonha de procurar ajudar se o fardo for muito maior do que tu podes suportar. Sentir tudo e tanto não é fraqueza, é entrega. Entregar-se não é ruim até que o ato de se doar se torne um peso.
    Reclusão é essencial e importante, mas encarar a dor e enfrentá-la é a única maneira de entender o que se passa aí dentro de fato e consequentemente aprender a domar seus sentimentos. Não se deve acostumar-se a romantizar a dor como se ela fosse intrínseca ou da essência, pois ela não é. Ela vem de todo um processo de socialização (no desenvolvimento) e de crenças internalizadas. A única maneira de acessar esses conteúdos é com a psicoterapia para então conseguir responder os questionamentos da tua existência. Eu desejo sabedoria nesse processo, nesse teu momento e muita, mas muita paz no teu coração. Ah! Obrigada por existir aqui.

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  3. Existir doi... conflitos sao como o real sentido da vida e as lagrimas sao o grito de protesto que nunca sera ouvido..

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