Kau Bonnett,

Com Gratidão

e com a alma.

QUANDO O AR PURO FALTAR

  • agosto 25, 2017
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Lembro da chegada deles. 
Parecia o fim do mundo. Barcos gigantes, vestimentas estranhas e palavras que não entendíamos. Chegaram sem pedir licença, tomaram posse do que compartilhávamos um com o outro, do que não era meu, era de todos nós índios. Quando vimos estávamos em minoria, trabalhando para eles, tentando fugir do anormal, que para eles era normal. Os anos voaram, tivemos que nos espalhar pelo Brasil. Nos acomodamos no nosso canto, e com a natureza continuamos conectados, vivendo uns pelos outros. Nossos bisavós partiram e deixaram a história. Nossos avós contaram com arrepio aos nossos pais e hoje, hoje nós vivemos outra história. Uma nova história de terror. Dessa vez não estão chegando grandes barcos, vestimentas estranhas e línguas diferentes. Dessa vez está para chegar grandes máquinas, vestimentas camufladas e línguas que não falam, apenas apontam e atiram. Querem o nosso canto, o único canto que nos restou. Querem nos tirar a paz, o alimento que plantamos, os animais que cuidamos, a vida que cultivamos. Eles acham que estão certos. Nos sem voz, nos calamos mais. Quem sabe um dia, quando o ar começar faltar para eles, isso os fará parar. Espero estarmos aqui. Espero poder contar aos meus filhos que isso era pra acontecer, mas não aconteceu. Pois o amor pelo outro foi muito além da nossa aldeia, foi o Brasil todo, o amor humano, em junção com o nosso.

Vai perceber o quanto de amor faltou. 

Com gratidão,
Kau Bonnett.





Kauany Bonnett (1996). Nasceu em Santa Catarina e atualmente reside em São Paulo. Começou escrever com 14 anos de idade. É aficionada pelo comportamento humano e pelos ensinamentos da vida. Por isso, transforma os momentos vividos em palavras.

1 comentários:

  1. Esse texto devia estar nos livros de história! tão triste porém real!
    Palavras de sentimento puro e triste!
    Tão linda tua forma de escrever a vida Kau...

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